quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Querido diário: Mulher por um dia


Vasculhei a agenda da minha mulher/namorada/irmã/mãe logo pela manhã e resolvi seguir à risca todas as árduas tarefas de ser mulher que ela passa diariamente. Acordei, e já no café da manhã, acostumado a comer o que bem entender, sem me preocupar com calorias, glútens e glicídeos, parece que um alerta vermelho me tomou conta: não engordar, não engordar, bip bip bip. E bem, coloquei adoçante no café (nem um pouco comparável ao adoçado verdadeiro do açúcar) e comi um pequeno pedaço de bolo - escolhi a cota de doces do dia, como previsto. Corri para a academia, já que o tempo era curto. Constrangedor fazer os exercícios de glúteos com bombados me secando sedentos por carne. Como cansa essas aulas de jump, pump e demais aeróbicos. Senti saudades do meu treino cheio de ferro pra puxar. No banho, duas vezes shampoo e massagear bem, fazer com que saia tudo. Sabonete normal, sabonete íntimo, hidratante antes de se vestir, um tal de leav in nas pontas capilares ainda úmidas, enfim: superficialidades. Pior parte: secar o cabelo. Um calor do inferno, a mão quase pegando fogo. Sequei de qualquer jeito, mas ainda bem que deu pro gasto. Coloquei um vestido qualquer e a primeira sapatilha que vi, afinal, combinar é para os fracos. Li, então, mais uma vez as anotações na cadernetinha cor-de-rosa: salto alto, maquiagem e saia. Baita frescura. Quase morri pra fazer tudo perfeitinho. Equilibrar o corpo em cima de 12 cm cansa, e é difícil. Ao vê-las com destreza saracoteando por aí, imaginava ser moleza. Que nada. Na bolsa lotada de badulaques afim de achar as chaves, quem disse que consegui? Dez minutos depois e tudo pra fora, só então encontrado o chaveiro enorme e de mulherzinha.

Fui a caminho de uma depilação e unhas marcadas no salão de beleza. Na rua, foi de uma escrotidão sem tamanho pedreiros, entregadores de gás e demais motoristas buzinando, tentando me bolinar e dizendo bagaceirices sussurradas.  Me senti nu. Eu, que achava mais um dos dramas femininos sentir nojo ao invés de orgulho em frente a uma atitude dessas, agora dou razão às mulheres. Foi um saco a manicure palitando meus dedos e canibalizando as carnes em volta da unha. Coloquei esmalte preto mesmo, num protesto meio indireto a essa moda de azul, amarelo e verde, coisa homem nenhum curte. E a depilação? Me dói só de comentar. A cera esquentando, a depiladora me vendo peladão ali, e o susto no puxão. Um atrás do outro. Queria gritar, mas mantive minha macheza intacta. A tortura é praticamente espartana. Dirigindo até o trabalho, também me assustou a quantidade de xingamentos e preconceito quanto ao dirigir. Ouvi centenas de "só podia ser mulher" e "volta pro fogão". O qual, depois de ser assediado pelo chefe e pelo porteiro do prédio comercial no rotineiro e ter que aguentar amiga falsa no emprego, tomei conta para o jantar.

Parece simples vendo na televisão aqueles pratos que os chefs preparam. Só que não. Na prática, é bem ao contrário. Assinalado para a noite, frango ao molho de champignon com arroz à grega e Caesar salad. Tudo muito complexo cortar direitinho, isso em cima daquilo, mexe aqui, desliga ali e espera até que a outra parte esteja pronta. Calor, fome e ainda mais ter que deixar a mesa arrumada. Enquanto esperava ela chegar. E que demora. Liguei uma vez, disse que estava a caminho (só não em que rua exatamente). Dez minutos pareciam duas horas. Me senti como qualquer moça se sente quando um cara se atrasa, e sinceramente, que chatice. Eu ali, Amélia. Pra minha surpresa, não parou por aí: o rio vermelho resolveu chegar justo neste momento. Não tinha ideia de como inserir aquele mini objeto chamado O.b. Achei um daqueles absorventes mais normais e coloquei. Cólica, que dorzinha insuportável. E nada da querida chegar. O jantar na mesa, eu exausto, e recebo apenas um sms: "não vou poder ir aí hoje, querido. te ligo amanhã, ok?". Raiva, revolta (deve ser algum desses resquícios de TPM), e todo esforço pra porra nenhuma. Resolvi tirar a maquiagem, colocar um daqueles pijamas minúsculos que elas vestem - e juram que serve pra alguma coisa - e ir dormir, frustrado. Mas com um aprendizado: moleza nenhum no dia de quem nasce sem nada no meio das penas e pelos no peito. Completa uma das missões mais impossíveis que já desempenhei, admito: mulheres, guerreiras são vocês. Sexo frágil somos nós, que numa gripezinha já quase ficamos de cama por dois dias inteiros e que, se obrigados a manter o pique com tantas tarefas complicadas, não conseguiríamos. Prometo nunca mais ironizar quando você reclamar de dor ou cansaço, e cuidar de você sempre que der.

Ass: Homem machão que merecia pelo menos uma semana nesse ritmo de vida e aprendeu a lição

8 suspiros:

Mônica Cruz disse...

Adorei Camila! Muito homem além de ler esse texto, deveria pelo menos, fazer uma das nossas árduas tarefas.

Camila Luchesi disse...

Nossa, excelente! Ser mulher é dificil! Como a gente sofre! Homem nenhum aguenta metade do que a gente faz! Um viva para nós, mulheres! :D

Bruna de Oliveira disse...

Adorei,super criativo o texto!

Beijos!

Priscila disse...

Mas ah guria, cansa de me supreender não? Usar a "visão de um homem" passando por tudo o que a maioria das mulheres fazem para garantir a o bem estar com o próprio corpo foi muito criativo da sua parte. Meus parabéns :*****

Victória Magalhães disse...

MUITO BOM! Com certeza, todos os homens deviam ter essa experiencia hein...

Jessica disse...

Experiência que todo homem deveria ter como obrigação. Muitos aí ficariam mais compreensíveis! Amei a idéia, o texto!

Ana Flávia Sousa disse...

Aplausos! Muitos aplausos! Cara, todo homem deveria ter o dia da mulherzinha! ô se tinha!
E deveria ser assim: Quanto mais ironizar nossos esforços, mais cólica! Não entende a TPM? Mais duas depilações! hahahaha
Seria cômico se não fosse trágico.

Otimo, sem mais.

Maíra Souza disse...

Hahahaha muito bom!!!! =D

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