Mostrando postagens com marcador São Paulo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador São Paulo. Mostrar todas as postagens

A filha pródiga à casa torna

5.24.2016 -



Eu prometi não voltar à Porto Alegre. Parecia feliz a quase mil quilômetros daqui. De fato, tive umas alegrias: boy atrás de boy, emprego na maior editora do país, amigos queridos, um quarto (dois, na verdade) pra chamar de meu. Podia soar como o meu melhor momento, ou a vida ideal da menina de vinte e poucos anos que detesta faculdade, mas adora trampar e escrever. Tava longe de ser.

O único fato true é que a má fase amorosa, a grana sempre curta pra uma São Paulo que me custava os olhos da face e trabalhar cerca de 10h por dia foram esgotando. Voltei a me medicar, passei a caminhar diariamente, sentia saudades da risada infantil da minha irmã e até dos puxões de orelha maternos. Mas como você não é feliz? Fazendo conteúdos que bombam, realizando hangouts, tendo a melhor amiga na rua debaixo? Eu também não sabia explicar. O que aconteceu foi: em novembro, decidi voltar.

O boy que mantinha a distância pode ter ajudado, verdade. Mas, a ideia de uma vida mais fácil me parecia oportuna. Enquanto a maior metrópole brasileira me sugava até a alma, baldeação atrás de baldeação, eu sentia que tornando ao ninho paternal daria pra recomeçar algumas casas à frente. Com o último trabalho no currículo, que agência me menosprezaria? O aluguel por metade do preços, as academias baratíssimas, a ideia de ir e vir de bike de baladas, bares e noitadas na casa de amigos. Enfim, respiraria mais aliviada. Errado.

O que tem pra mim na capital gaúcha? Zero vagas legais pra ganhar uma grana e viver. Um quarto, agora divido com a irmã menor (quem mandou abandonar tudo em 2014, menina Camila?), os pais no ouvido a cada manhã, pressionando pra que eu ache um rumo, um job, um freela, uma vida mais calma. Alguns bons caras que aparecem no caminho, mas me falta sanidade mental - e emocional - pra mantê-los entretidos. Carteira quase sempre vazia. Uma saudade destruidora de ralar o dia todo e chegar em casa exausta, mas fleumática.

A nossa liberdade não tem preço, eu aprendi. Voltar pra casa dos pais é refazer uma barreira que há muito já rompemos e não temos ideia de com o que se constroi. Você sabe? Eu ainda não aprendi - e espero zarpar daqui sem conhecer, admito.

Acordei meio libriana

9.20.2015 -

Hoje tive certeza: vou morrer sozinha. O sol à pino dilacerando as costas e roçando as coxas, a avenida Paulista lotada de casais que seguravam mãos, se enganchavam em esquinas de trânsito corrente e sorriam um para o outro por ter se encontrado de bobeira na vida. A única coisa que eu carregava era uma sacolinha plástica com remédios, a bolsa vermelha em couro à tiracolo, um mau humor do cão, tantos os amores esfregados na fuça, arreganhados de tesão em pleno meio-dia de sábado da cidade grande.

Quem diabos carregaria minhas sacolas cheias de roupas com cheirinho de recém comprados? Que cara aguentaria firme e forte a maré de surtos que a minha condição maleável traz junto do brilho de ser incansável? Existe alguém por aí, fabricado sob medida e feito à mão para segurar o tranco das manhãs ranzinzas e os chorinhos de angústia em finais de semana que chove? Tudo bem que minha criatividade acima da média e desejo de surpreender de quem tem Marte em Aquário fazem da convivência uma aventura diária, em constante transformação e rebeldia. Contudo: há número considerável de marujos dispostos a testar a arte do afeto sem cair na cafonice?

Deus, eu peço só uma prova. Uma confirmação, um recado, uma luz. Se está vivo ele, essa coisinha que anda por aí com minas não tão inventivas quanto eu, falantes quanto eu, perturbadas quanto eu, avisa que tá na hora do encontro que eu vou ali me aprontar. Caso ele viva por aqui, nos cruze pelo metrô, faça com que esbarremos no mesmo lugar de trabalho, ou enquanto saio do meu bar favorito e ele chega - eu fico para umas biritas a mais, sem problemas. Avise logo antes que essa certeza se perpetue e me torne dessas moças jovens que aparentam mais idade e criticam garotas livres que andam por aí vestidas como quem valoriza as curvas.

Se o amor for uma verdade consistente, como tenho constatado e sendo obrigada a engolir - sem chorar - em todas as redes sociais por aí, espana essa certeza pessimista, acalme o meu coração turbulento e mente ligada nos 220 volts, tire ele da cartola e trago de volta em menos de sete dias esse sossego que nunca tive. Talvez eu morra acompanhada, as mãos juntinhas, cada um em sua maca de hospital particular; uns minutinhos antes, porém, que sou ansiosa e prefiro ir antes, com a certeza de ter conhecido essa tão celebrada paz.