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Vocês, os rasinhos

6.11.2016 -


a minha geração é ridícula. melhor: sentimentalmente ridícula. além do medinho trouxa de se comprometer, rola uma despreocupação com o outro que me tira do sério. nada de "e se fosse com a sua irmã, gostaria que um cara a tratasse assim?". não, é aquilo: ela, ainda que pronome pessoal feminino e da 3a pessoa, é gente. só ouço amigas reclamar dos sumiços, dos absurdos e das babaquices que escutam, vivenciam, desesperançam. quando foi que repartiu a alma em tantos pedaços que esqueceu a delícia que é estar ali, inteirinho?

é bizarro. eles se partilham entre três ou quatro garotas pra não se entregar por inteiro pra uma só. como se fosse crime. tal qual ainda beirasse o ridículo ou cafona demonstrar afeto, sentir carinho, gostar de segurar a mão na rua. uma pergunta simples, como: "você tá solteiro?" se torna o maior dos trampolins pra que o próprio tropece na própria fala. tem uma garota, lá. mas assim, nada sério (ou seja: ainda quero ver você pelada). "só que tem essa mina e umas outras no rolê, como você, certo?" - errado, um equívoco; há muito já cansei da brincadeira sou-de-muitos-pra-não-ser-de-ninguém. meu limite de maturidade não é aceito pra adentrar esse playground.

prefiro mesmo a delícia de separar o kit e pular pra dentro do mistério alheio, sem receio, ojeriza ou parcimônia. acho sexy conhecer família, acho incrível acordar ali ao lado, com bafo matinal, acho importante desvendar horários, maus hábitos e esperanças que a criatura com quem trocamos fluídos carrega nas horas vagas. e acho, também, de uma bundamolice tenebrosa esse lance que inventaram pra que a gente obstrua a passagem de bons sentimentos e segure o máximo o muro das decepções intactos. se todos desencantarão, hora ou outra, pra que tanto esforço para se mostrar suficiente, gélido, fechado para balanço? sério, além de covardes cês são uns panacas.

a minha geração não nota o papel de idiota que segura firme pra reiterar que é livre, é desapegada, é incrível sozinha. é emocionalmente rasa, é feita da falta de flerte, da inexistência de trocas e da extinção dos namoros longos e respeito pelo que passou. todos insubstituíveis, enquanto teclam superficialidades e combinam rolês que furarão no dia seguinte. todos ocupados demais para responder mensagens, receber (& dar) carinho, olhar menos para o próprio umbigo. ser frio é o novo kitsch, contem a eles antes que seja tarde, jovenzinhos que amam signos.


Às garotas que se apaixonam fácil

5.22.2016 -


Tá tudo bem. Sério, tudo ótimo. Importa bem pouco o que as outras pessoas pensam. Ou, quando dizem: "Mas outro? Mas de novo? Mas por que?". Nem todo mundo consegue empatizar esse superpoder que é ver o melhor nos outros e querer mergulhar em cada personalidade, corte de cabelo ou história interessante ali, à frente.

Tá tudo bem, mesmo. E que ótimo, olha só: hoje você tá aí, sofrendo por Rodolfo; amanhã passa e sexta-feira você pode até sair com o Carlos - e se apaixonar, e sair do tédio, e sentir alguma coisa novamente. Ou não. Mas, logo, uma conversa sincera demais ou uma química explosiva a fazem ficar de quatro, de peito aberto, de dedinhos ansiosos que mandam mensagens e esperam respostas. Imagina a vida cinza de quem segue tudo na linha e critica cada possibilidade encantadora à frente? Então.

Tá tudo bem, também. Ué, nem todos conseguem mutar intermante, costurar feridas rapidinho e sangrar por dois dias, mas estar numa boa na terceira manhã. Dá pra ter os dois pés fora do chão, sim, só que com alguma cautela - as quedas nem dói mais tanto, e você já decorou a rota pra voltar à si mesma. É bonito, é bom, é saudável ter a glândula dos afetos funcionando e se sentir viva a cada par de tênis masculinos grandes demais jogados no chão do quarto.

Tá tudo bem, estou dizendo. Você não precisa equilibrar mais de dois caras como pratinhos chineses, sendo que um deles pouco interessa. Você pode sentir todos esse arco-íris e estar louca pra desvendar ainda mais de uns encontros que foram mágicos. Você não é menos porque suas paixões são intensas e fugazes e quase nunca dão pé. Pelo contrário: você insiste em ser furacão, ainda que todos ao redor estejam acostumados apenas a marolinhas. A grande questão é que os arquétipos aventureiros andam em falta, querida.

Tá tudo errado, acredite em mim. Com aqueles que veem homem apaixonado como fofo, mas mulher que sente qualquer centelha como louca. Com quem critica as galáxias internas alheias sem ter coragem de examinar a sua própria. Com quem foge da raia porque sentiu a profundidade das suas palavras e mensurou o nível de intensidade das suas águas. Tá tudo ótimo aí dentro, e é o que importa: tem sangue correndo, tem frio na barriga, tem umas ilusõezinhas, mas acima de tudo tem quem ache incrível tanto renascimento, risco e fogo.



Ainda não

5.17.2016 -


Ah, ontem foi ótimo. É, ele é bacana. Gosto de virginianos. Sabe, eu tava no Bullguer e fiquei até meio em dúvida se ia ou não. Tinha feito a tal entrevista em inglês, tive que voltar e tomar banho correndo, tinha que ajudar a Mari antes de encontrar o pessoal pra jantar. E depois o tal date. É date que chama quando a gente vai sair com uma pessoa que não vê há mais de ano, mas já pegou? E tinham dito que paixonite de carnaval não dura. É, mas ainda não rolou.

Ele ligou, insistiu. Eu tinha comido o hambúrguer mais sensacional de São Paulo, de frango e com cebola roxa. Vai, eles disseram. Contei do fora horrível e do boy que levou a sério uma gravidez jamais cogitada. Narrei direitinho os outros barcos furados que dei pé, corda e âncora pra me enfiar. O povo teve que ir indo. Ele tava à caminho. Um amigo esperou comigo, fofo, né? Ali ele, ó. Fulano, esse é ciclano. Ciclano, esse é fulano. Calma, calma: ainda não é agora.

Fomos no Empanadas. Era quarta, dia de futebol. Quer ficar virado pra tevê? Vamos trocar então. No mesmo emprego? Ah, eu sai de lá, zero chance de crescimento. Um pessoal ótimo, mas uma galera escrota também. É, sou bem doida de largar tudo pra investir nuns lances próprios. Me arrependi de ter voltado pra cidade onde cresci, pra um quarto que nem meu é mais, pra casa dos pais. Eu jurava que ele era de Londrina, ele tinha certeza que eu já era formada. Pois é, mas ainda não é agora.

Daí vem a melhor parte. Chocolate, morango com champanhe ou Cosmopolitan? Ele compenetrado pra fazer um trabalho manual digno da viagem. O beijo surpresa no meio da calçada da Vila Madalena. As trocentas voltas sem rumo pelas ruas da Zona Oeste. A mão dele, enorme, pressionando a minha. Aquela química que ficou esquecida numa caixa em um porão qualquer do ano 2015, ainda mais incandescente. Os dois apagados no carro, em frente ao meu prédio, na Itapicuru. Acha que agora sim, certo?

Não, que nada. Surpreendentemente, ainda não. Vinte e quatro anos na cara pra perder a virgindade que é se divertir deliciosamente de roupa. Tão acostumada a ser vista como pedaço de carne, até estranhei alguém a fim de almoços e cafés pra também provar das minhas ideias. Daqui a pouco, daqui a pouquinho, sim.



Obrigada

5.15.2016 -


Me desculpa, mas por que diabos você me dá corda? Eu sinto vontade de mandar isso e seguro na ponta dos dedos o apertar do Send. Por que não rola? Por que você alimenta a minha imaginação pra, no último minuto, agradecer a minha oferta de diversão tal qual quem se abstém da sobremesa?
Por que ainda não bloqueou meu número? Por que parou de dar dicas sobre Perdizes, bairro onde cresceu e estou hospedada? Por que me apertou até que eu dissesse aquilo que você gostaria de ouvir?
É minha última noite na cidade dos brilhos, vamos passar acordados. Tenho nem 24h mais nessa cidade e queria fechar com a chave dourada que só os caras que exercem algum fascínio sobre a minha mente ingênua possuem.
Obrigada por ter sido cortês, ainda que paulistano bobão típico. Obrigada por ter respondido em meio aos voos e partidas de futebol. Obrigada pela escrotidão prévia pra fingir que termina aqui essa historinha ridícula que perpetua há uns anos.
Toda uma polidez e preocupação em transparecer o cara bom que você reafirma para si mesmo que adoraria ser - que é, mas só no universo de grana, loiras gostosas e camiseta da CBF que arrumou para se distrair. Vazio, leve, oco. De nada.

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Eu só quero se for Bonnie & Clyde

5.10.2016 -



A real é que naquela combinação existia espaço pra apenas um protagonista. As garotas novinhas já se juntam, em bando, pra comentar "me beija" nas fotos que ele posta no Instagram - mesmo que as minhas sejam completamente mais apelativas (e sensuais). É provável que ele tenha uma guria em cada cidade, tal qual todos os músicos com alguma relevância na terra brasilis.

Nesse momento da vida, eu sou a menina porra louca que faz uns free-las de produção e tenta a sorte com sites próprios; zero estabilidade, tirando a cama na casa dos pais. Ele, no alto da sua relevância de líder de banda, mal teve tempo de ver em primeira mão o comercial que emprestei o rostinho pra marca gaúcha e ainda não rodou na televisão.

E, agora noto: jamais seria Bonnie e Clyde, dessas parcerias aventurescas, inseparáveis e podrinhas que admiro. Não tinha impulso nenhum de Johnny & June, ou John e Yoko - pelo contrário, tudo que ele deseja é uma menina low profile que fale baixinho, use jeans e camiseta branca larguinha e preserve aquele ar de mistério, que na verdade é mais falta de o quê contribuir. Toda essa vivacidade desajeitada e espontânea, meu grande trunfo, era incapaz de ser lida na linguagem autocentrada que ele falava.

Passei dias odiando a mim mesma numa reconstrução interna maluca para tentar redefinir quem diabos eu sou. Fugi de boys amáveis, ignorei caras bacanas até que finalmente consegui deslanchar um encontro que parecia razoável e valia o make e a grana investida. Atravessei o bar até encontrar o cara parrudo, germânico e animado. Ele sorriu e não era você.

Ele amou Spotlight - filme que detestei - e não era você. Ele me fez beber pouquinho e tomou coragem pra sentar na cadeira ao meu lado; decididamente, não era você. Falava sem sotaque (não era você), tinha fôlego e desenvoltura na cama (porém, não era você), enviou mensagem assim que chegou em casa, fascinado com a parceira de crime que visualizou nua, crua e sincera demais dentro daquelas horas (doeu, mas não era você).

O seu maior delito foi seguir pisando no meu coraçãozinho nem sempre aparente, mas pulsante e vivo de sentimentos esquizofrênicos a cada troca de foto ou novo post de Instagram. Onde não puderes amar, não distribua likes de compaixão. Não existe mina só gata e muito menos tadinha nesse guichê.

Bem mais que bunda

5.04.2016 -


"e tem a bunda mais bonita do universo, que com certeza vale mais que caráter"

Foi o que ele tinha dito numa daquelas conversas onde eu rancava atalhos pro meu coraçãozinho enquanto ele, pacientemente, dava sinais recíprocos. E eu que sou dessas orgulhosas que a combinação bons genes +corridinhas tem feito no meu corpo até sorri na hora. Depois de unir as palavras gostosa, bonitona, gata pra cacete e afins, sempre logo depois de cada uma das razões para me dar o fora, conclui: ele me viu depressa demais. Tivesse parado um pouquinho mais para avaliar a quantas meu peito acelera a cada minuto ou o tanto que eu conhecia de mundo, teria visto que existe conexão entre cérebro, quadril e peito - bem além do que ele conseguia visualizar.

"caso tu ainda queira tomar um Mocha Branco e tentar me ouvir calminha e zero agressiva, fica o convite"
Disse eu, remando sem saber pra uma correnteza ainda mais longínqua; numa última tentativa de reanimar qualquer afeto já esboçado. Mas a real é que uma das únicas coisas que ele sabia a meu respeito era o sabor favorito do Starbucks. Por que eu quis? Nada, porque toda vez que falava comigo precisava ser às pressas, urgente e em muitas outras respondia apenas quando podia. Até aí, nada de surreal. Porém, se conhecer o outro representa toda uma infinidade, como fazer sem cautela? Digo: se você foi a dois ótimos encontros e iniciou toda uma ponte, por quê saltar num bote e me deixar à deriva?

"mas cara, é isso: sempre falando que tu é gata, é gata, é gata. disso a gente já sabe! ele teve sensibilidade de perceber que tu também é uma gênia?"
E como minha melhor amiga, ela geralmente dava puxão de orelha. Dessa vez, fazia coro a umas outras duas que me até me condenavam, mas o viam como ainda mais vilão. E todos aqueles dias conversando? Poxa, mas e quem TATUA coisas bêbado? Faltou sensibilidade. Exato. Gênia ela, dificilmente. Porém, de fato: perguntava pouquíssimo sobre como eu andava e o que tinha feito. A quantas estava aquele possível emprego ou o novo romance. Aliás, sequer sabia que eu andava escrevendo algo. Na maré alheia, a gente só vai até a profundidade que o outro permite.


Engov

-


Sou total ciente da personagem caricata de seriado ruim que tenho me tornado. Quem visse as cenas, assentaria com a cabeça, apenas: primeiro o despertar embrulhado, cheio de ressaca. Dois goles de água, um Engov. Que diabos eu fiz noite passada? Cacete, viu. Sei que quase esqueci a carteira no carro dele. Tenho certeza que ele tava puto. Falei demais? Brigamos? Vou mandar uma mensagem a fim de paz, amor e sobriedade, azar. Foi. Mais duas horas de sono. Nada de resposta. Três horas de exercício físico + banho e almoço. Nadinha. 6h de vácuo. Ele ia trabalhar num roteiro, pelo que eu lembre. Matheus, eu cheguei chateada ontem de madrugada? Ah, mas cara de bunda eu tenho quase sempre, né. Mais uma mensagem, que se dane. Por que ele tá fazendo isso comigo? O que, de tão grave eu fiz? Casa da Priscila. 12h depois. Ninguém deixa o celular por tanto tempo ali sem poder dar uma resposta de dez segundos, certo? Certo. Vou mandar um áudio, Pri. É isso. Não é possível esse rolê. Não lembro, realmente não lembro de uma parte e, daquilo que recordo, nada foi assim, horroroso. Eu não quis ir embora do motel, é. Mas poxa, pra que marcar comigo entre outros dois programas? Sexo apressado é o pior tipo de sexo do universo. Se tivesse namorada, entenderia. Detesto que me apressem, ainda mais nua, coberta só de tesão. Tô apreensiva. Passei o dia hora sem fome, hora devorando o mundo pra ver se concentro mais na mastigação e menos nessa angústia. É, nada de resposta. E o pior: ele visualiza! Caralho. Bom, vou pra casa, tentar dormir. Moço, pode ir pela Vasco, pega a André da Rocha e depois a Bento. Nada de resposta, nada. Sono nenhum também. Um filme sci-fi com uma máquina que quer ser humana, ótimo. 6h de sono, intervaladas por despertares assustadiços pra olhar o telefone. Eita, mensagens. Cinco deslizes fatais que ele ODEIA (assim, em Caps) em relacionamentos. Ok, pedi para ir na gravação do clipe. Implorei, também, para conhecer os amigos. E os pais dele, certo. Deixei ele irritado, bebi duas garrafas de vinho tinto e fiquei agressiva. O pior, pro final, óbvio: falei. No meio do sexo. Que queria. Um filho. Dele. No terceiro encontro. Todas essas maluquices que sequer pensei sóbria. Que vergonha que vergonha que vergonhaaaa. Pelo visto, ele levou a sério. E pensou minuciosamente em cada detalhe pra me fazer sentir o lixo do milênio. Isso, sua trouxa, mistura álcool e remédios pra cabeça por puro nervosismo. Vai, se afoga agora nessa mágoa de perder boy ótimo pra (personagem podre de seriado indie) você mesma. Onde diabos eu assino a petição pra exterminar a minha espécie desse planeta? Ou melhor: eu mesma me retiro dessa galáxia egoísta, fria e insensível com todos os bêbados atrapalhados do rolê, isso sim.

Perguntinha

11.04.2015 -


Ei, você. Eu quero perguntar uma coisinha. Só uma, é rápido, é indolor: você não cansa? Sério: você sente seus pés inteiros e arrojados e suas batatas da perna leves, velozes? Você sente o seu coração flutuando, feito barquinho num mar de mesmices tão superficiais que se morre fácil de tédio? Você guarda aonde a exaustão, o combustível, as frases não ditas dessas relações todas onde é preciso fingir, tapar, enganar, silenciar pra que se siga na cabine de controle?

Pois eu ando exaurida de tanto nada. Fatigada dessas mesmas medalhas que compartilhamos pra subir no ranking de criaturas mais blasés e vencedoras por frear sentimentalismos. É como correr uma maratona de 6 km atrás de uma segurança que nunca aparece. É o afogamento lento de uma trilha de aventuras, cheiros, corpos, pequenos lugares no corpo alheio que a gente deixa de investigar porque aprendeu que o medo é algum tipo de certeza.

Antes apanhando de uma ciranda de situações que tendo que calar fechar num calabouço da mais alta torre de mim mesma todos os desejos que queimar nas bordas para não acertar logo o centro de tudo. Antes seguir logo pra uma próxima, ainda que doa, que aprender a se situar numa passivo-agressividade amorosa que nada tem a ver com a minha espontaneidade sedenta por mais vida. Você se sente mais bem disposto ao fugir de todos as paixões que poderiam ter florido com alguma paciência, é isso? Depois não diga que eu não perguntei.

Você dorme bem quando dorme com ele?

9.30.2015 -

"Mas, quando você dorme lá, na casa dele. Você dorme bem?", ela me perguntou. Engraçado que, a maioria das minhas grandes amigas, é mais velha - talvez uma herança da mania de querer desesperadamente chegar à adultice e ouvir demais da mãe quando criança "Tá, Camila, agora vai brincar um pouco que isso não é assunto de criança". Miúda demais pras conversas de gente grande, aprendi a me enfiar, ainda que escondida, para ouvir os assuntos dos mais velhos. Já maior de idade, cansei logo das amigas que tinham tão pouca experiência a me acrescentar.

Voltemos à pergunta que pesou o tempo naquele fim de tarde, uns cinco anos lá atrás. Eu dormia bem quando pegava no sono ao lado dele? Bem, não. Estávamos as duas amorosamente entusiasmadas naquela fase: ela, vivendo um amor na ponte-aérea que tinha tudo para dar mais do que certo; gostavam de bons filmes, apreciavam a mesma música e o sexo era incrível. 

Eu iniciava um affair que durou um tempo com um aspirante a jogador de futebol do time adversário ao meu Grêmio; tínhamos opiniões incongruentes sobre quase tudo, ele adorava sertanejo e eu ia apenas em baladas indies, a maioria das obras cinematográficas que eu adorava, ele nem ao menos conhecia. A química, contudo era ótima - aliás, me arrisco a dizer que era o que salvava aquela pseudo-relação. 

Caía no sono sossegada e calma quando dormia no Menino Deus? Que nada, pelo contrário. E foi esse alerta que comecei a observar toda vez que outro novo wannabe-qualquer-coisa cruzava o meu caminho. Se foi bruxaria dela ou mera sabedoria, chuto o segundo palpite. Como levar adiante um romance onde não se desfalece relaxada ao lado do moço, hein?

Comecei a notar: com todos os homens que passei mais de cinco noites, ria além da conta, sentia a liberdade de mostrar superfícies minhas não tão planas, soltava bichos, feras e papas da língua sem aspas nem ponto e, adormecia tranquila. Por horas. Sem zilhões de pensamentos confusos no meio da noite, sem levantar trinta vezes para ir ao banheiro, com o coraçãozinho fleumático, os batimentos ritmados, calminho. Acordava também descansada, as ideias no lugar, nenhuma certeza fora do barco. Foi aí que passei a levar essa máxima com seriedade.

Ei, você aí que tá saindo com boy novo, observe: você dorme bem quando dorme com ele? Sim, claro, às vezes, talvez. Você coloca a camiseta dele para pegar no sono e, de repente, rola uma insegurança que mata o ócio? Há segurança suficiente aí dentro para conseguir ser essa maravilhosidade toda que você, de fato, é assim que ele baba no travesseiro feito criança? Comece a notar se há, além do fogo, paz e acima de qualquer afinidades, conforto. Poucos amores duram tanto sem se conseguir sonhar, ainda que por algumas horinhas. 

A minha amiga hibernava ao lado do rapaz que ora estava em Porto Alegre, ora voltava pra cidade enorme onde residia. Não que eles ainda estejam juntos até hoje, mas posso dizer que foram felizes pra cacete enquanto a fábula durou. Acho que o que realmente importa é, na cama, querer mais cinco minutinhos.



Prazer, trouxa.

9.28.2015 -


Se me apertar os impulsos, vou correr atrás. Se desejar de todo coração, é bem provável que me declare antes do café da manhã. E caso bata os olhos e sinta todas as borboletas se remexer no fundo falso da barriga, tomo a iniciativa - sem medo, burocracia ou primeiras intenções: pergunto nomes, puxo conversa, desenrolo a melhor das minhas performances. Ao meu ver, otimista, essa é uma faceta onde me permito ser corajosa, intensa, romântica. Para uma galerinha do mal por aí, contudo: prazer, trouxa.

O meu time sempre foi o dos azarados do bem: mesmo com a melhor dos quereres, às vezes atropelo sentimentos e acelero fases. Improviso palavras e autentico esquetes. No fim das contas, o dar de ombros e a conformidade em apenas uma palavra: azar; parto pra próxima sem nem ao menos me despedir. E fico triste toda vez que diminuem o amor, que apedrejam o bonito de algo que pode ser tão luz e tão pouco inferno em alguém. 

Experimente demonstrar um viés, um tequinho, um milímetro que seja numa conversa de bar o seu peito motorizado à vapor, a sua ingenuidade profissional, alguma das tantas ciladas amorosas onde caiu para ser resgatada por um aparente mocinho que a levaria a se esfolar de amor novamente, e por aí vai. Eles a olharão feio, haverá quem feche a cara, tem sempre alguém presente daquela alcateia onde se entregar é ridículo, se expor é pecado e ai de quem comece com discurso piegas por aqui.

O orgulho em ser racional. A altivez em não pertencer a essa doença tão sem precedentes, quiçá lógica. Toda essa maluquice evitada para viver vidas regradas e cheinhas de solidão, superfícies rasinhas, conversas banais. Pra que diabos arriscar? Ao fazer as contas, a ameaça da vulnerabilidade é gritante. Burros os que se jogam em águas duvidosas, perdedores estes que deixam a esbórnia e o não-apego atrás de l'amour, essa utopia. 

A tendência é esconder qualquer afeto sob sete chaves atrás de qualquer outro órgão onde não se encontre sóbrio, menos ainda embriagado e de telefone em mãos. E trouxas nós, que insistimos em crer num saudosismo de mãozinhas dadas e velhices conjuntas. Que outro adjetivo se não trouxa essa gangue pró-afeição que se recusa a participar do cartel blasé onde a magia contaminadora de dois olhares raramente pega? Trouxas todos esses que sorriem ao ver uma mensagem chegar e passam o dia breacos de êxtase porque talvez seja ele, pode ser que seja esse, vai ser ótimo caso sim. 

Trouxa de mim que choro em botecos e me declaro tão cedo, mudo de cidade por não saber conviver comigo tristonha a quase mil quilômetros de distância. Trouxa dele que estaciona o carro sob uma árvore na sombra e diz: eu quero entrar dentro de você. Trouxa o resto do mundo, que perde esse segundo onde ele penetra a camada mais funda em mim e nem é fisicamente; vocês nem imaginam o que estão perdendo. Prazer, trouxa.




André,

9.27.2015 -


Quando foi que houve essa virada no tempo e você começou a me tratar tão, tão mal? Há dias cinzentos onde acordo com a névoa e, enquanto caminho e bebo chá pelo apartamento, essa dúvida surge - junto a umas irmãs insuportáveis, como "Vai ser sempre esse romance lixo entre nós dois?" e "Ele não se sente mal, nem um pouquinho?"- e me corrói um pouco antes de ir trabalhar. Foi só sexo, diz a minha amiga. Se os fatos não tivessem rolado tão naturais e de pronta vontade, até apostaria minhas fichas em tanta racionalidade. A real é que adoraria respostas que você, escorregadio, assustado com a velocidade das minhas palavras, sempre fica por dizer.

Teve o beijo logo no primeiro semáforo fechado - eu e meu problema com sinais vermelhos e detalhes ultra-focados. Teve umas conversas onde você elogiou o meu progresso e os pés fincados no concreto paulista. Até algum carinho pela manhã: depois do cansaço, cada um jogado em um canto da cama; calor, exaustão, respiros prolongados. As suas unhas passando de leve sob o lombo das minhas costelas, aparentes, nuas. Se não foi um suspiro de amor, um segundo onde você conseguiu esquecer que sente pena e raiva de mim e eu não lembrei das escrotidões que você aprontou. Foi lindo sentir nossa pele conversar numa linguagem tão específica, tanto tempo à base de maus tratos, os corpos há mais de ano sem se assistir.

Então: carência, tédio, tesão? Uma pequena morte onde ressurgiremos em algum reencontro nos anos mais para frente - você arrependido por não ter se bem aproveitado da minha energia jovial e eu certamente segura, tantos caras depois, quem sabe assentada com alguém que me devote paz e café da manhã. Por que diabos tudo tão bem e, de fininho, a sua pior versão de intelectual trabalhador que vence na vida avisa que é melhor manter distância, tal qual fosse eu um cão raivoso, qualquer paciente com lepra amorosa em estágio avançado - o que é engraçado, afinal, se tinha alguma saudade viva em mim, ela era do seu pau -, você sabe? 

É louco que, talvez, sempre exista a distância entre nós dois: mudei pra cá um pouco pra ver no que dava ficar mais perto e ter dias incríveis perto de você, que agora se divide entre aqui e a terrinha do "ora, pois". É doloroso achar que poderia existir qualquer carinho, admiração ou bom senso entre nós - e ver decolar, pela enésima vez, minha tentativa pra que tudo fique bem e a gente não se odeie. Aquele "Tá louca, menina?" assim que vi o carro chegar perto da minha esquina resume bem demais todas as proporções com que você me mede; foi eu rasurar os limites uma vez sequer, sem tratamento, e nunca mais os seus olhos voltarão a me enxergar como a "namoradinha gata do Sul", que é nova mas manja horrores de cultura, história da músicas, tendências de moda. 

Há dias em que acordo e perdoo você de tanta burrice - sim, burrice, como chamei a recusa do nosso fim na omeleteria do Itaim Bibi, como volto a nomear esse afastamento sem explicação. Medo do apego? Pavor das loucuras de uma hora e outra? Falta de paciência frente a tanta sensibilidade? Decidi enfiar ainda mais a cara no trabalho e começar a correr pela Av. Paulista, pra ver se desencano, faço uma grana, não enlouqueço. Há noites em que quase questiono, pela última vez, pra onde foi aquela paixão que quase nos deixou doente, se é assim com todas, como cultivar tanta frieza sem congelar. Desisto. Por ora, torço pra que esse ponto final se torna um outro nome próprio bonito pra que eu coloque em título de texto e chame pelo diminutivo. Pra sempre, sei que vou voltar a ter seis anos de idade e acreditar em milagres toda vez que a gente se ver. 



Acordei meio libriana

9.20.2015 -

Hoje tive certeza: vou morrer sozinha. O sol à pino dilacerando as costas e roçando as coxas, a avenida Paulista lotada de casais que seguravam mãos, se enganchavam em esquinas de trânsito corrente e sorriam um para o outro por ter se encontrado de bobeira na vida. A única coisa que eu carregava era uma sacolinha plástica com remédios, a bolsa vermelha em couro à tiracolo, um mau humor do cão, tantos os amores esfregados na fuça, arreganhados de tesão em pleno meio-dia de sábado da cidade grande.

Quem diabos carregaria minhas sacolas cheias de roupas com cheirinho de recém comprados? Que cara aguentaria firme e forte a maré de surtos que a minha condição maleável traz junto do brilho de ser incansável? Existe alguém por aí, fabricado sob medida e feito à mão para segurar o tranco das manhãs ranzinzas e os chorinhos de angústia em finais de semana que chove? Tudo bem que minha criatividade acima da média e desejo de surpreender de quem tem Marte em Aquário fazem da convivência uma aventura diária, em constante transformação e rebeldia. Contudo: há número considerável de marujos dispostos a testar a arte do afeto sem cair na cafonice?

Deus, eu peço só uma prova. Uma confirmação, um recado, uma luz. Se está vivo ele, essa coisinha que anda por aí com minas não tão inventivas quanto eu, falantes quanto eu, perturbadas quanto eu, avisa que tá na hora do encontro que eu vou ali me aprontar. Caso ele viva por aqui, nos cruze pelo metrô, faça com que esbarremos no mesmo lugar de trabalho, ou enquanto saio do meu bar favorito e ele chega - eu fico para umas biritas a mais, sem problemas. Avise logo antes que essa certeza se perpetue e me torne dessas moças jovens que aparentam mais idade e criticam garotas livres que andam por aí vestidas como quem valoriza as curvas.

Se o amor for uma verdade consistente, como tenho constatado e sendo obrigada a engolir - sem chorar - em todas as redes sociais por aí, espana essa certeza pessimista, acalme o meu coração turbulento e mente ligada nos 220 volts, tire ele da cartola e trago de volta em menos de sete dias esse sossego que nunca tive. Talvez eu morra acompanhada, as mãos juntinhas, cada um em sua maca de hospital particular; uns minutinhos antes, porém, que sou ansiosa e prefiro ir antes, com a certeza de ter conhecido essa tão celebrada paz.



Ele me chamou de louca

8.20.2015 -
A colagem, pra variar, é da rainha Eugenia Loli


Ele me chamou de louca
Eram quase onze da noite
E o meu copo estava cheio
Eu poderia ter jogado na sua cara
Mas decidi que era melhor beber, gole por gole
Ele não valia aquele vazio

Ele me chamou de louca
Eu tinha acabado de chorar porque ele beijou outra
Na minha frente
Do meu lado
Enquanto me olhava
Eu sai de fininho, mas ele me puxou pelo braço
Ele saiu enquanto eu justicava
Sozinha

Ele me chamou de louca
Depois de tirar o celular da minha mão, escorregadia
"Você tá vendo coisa onde não tem, qual o seu problema?"
Toda vez que tocava o telefone, ele corria
Ia pro banheiro, pra sala
Atendia
Ele pediu que eu fosse embora, afinal
Até quando (essa louca) ele aguentaria?

Ele me chamou de louca
Ciumenta, ansiosa, neurótica,
"Você fala demais, tem opinião pra tudo"
Disse ele como quem zomba
Mas no fundo
Não aguenta nem duas na cama

Ele me chamou de louca
"Eu não presto, tá entendendo bem?"
E eu tinha certeza que ele valia nada ou
Nem o que comia
Mas ainda assim, o coração, esse frouxo
Viu qualquer oportunidade, romance, euforia
Ele sumiu depois do primeiro mês
Eu segui, na escuridão
Sem ver ele qualquer outra vez.
(Ainda bem)




Henrique,

8.19.2015 -
Colagem de Eugenia Loli



Tenho minhas ressalvas se o domingo piora tudo ou se isso é tristeza mesmo. Ontem quando pedi que você fosse embora eu desabei depois como uma criança de cinco anos porque nunca chega a vez dela de ser ajudante do dia na escolinha. Adianta pouquíssimo ser perita em mergulhos cavados num rolê onde o must have é cada vez mais superficial. 

É engraçado porque você quis muito sair comigo por uns dias e tentou enquanto eu nem sabia que você era tão gato ao vivo. É irônico justamente porque eu resolvo fácil minhas paixões, sempre tão fugazes e tortas: gostei do seu charme de homem quieto que mal troca olhares no bar, questionei Ivanildo, o garçom camarada de sempre, descobri o nome do seu amigo e poucas horas depois nos reconhecemos daquele encontro onde nenhum de nós nunca compareceu. Vi até certo misticismo em uma lua nova que talvez juntasse dois quereres de uma vez por todas. Mal sabia eu que era só mais um rasinho desses onde eu molharia os pés e voltaria a dormir sem saciar o calor colorido de coisa nova em andamento. 

A gente foi num bar que adoro, nós dois seguimos bebendo qualquer coisa na rua porque estava mais fresquinho e fazia milênios que não via naturalidade tanto nos meus atos quanto nos dos caras (coxinhas) que habitualmente saio. Mas, pra variar, é só eu ligar um pouquinho o botão "tô afim desse rapaz" pra que ele desligue a luzinha verde de "desafio cumprido"e mais um jogo de gato e rato se inicie. Afinal, se não tiver a mesma química que nos incendiou, tudo: dá outro like, manda outra mensagem, flerta num bar com a próxima. Os relacionamentos, mais que líquidos, se tornaram descartáveis e facilmente substituídos - caso você não responda, outros dois ou três me entretém numa noite que prenuncia frente fria e rouba as estrelas no céu.

Escuto o barulho dos carros, sempre apressados ao cruzar a Rua da Consolação e revivo daqueles quatro ou cinco minutos de "Vai fechar a porta na minha cara?" e "Eu jamais faria isso, mas é melhor você ir". Não morro mais afogada na própria angustia: aprendi a verificar as condições da água antes de imergir profundezas. Naquele sábado, senti furar a barreira de uma correnteza forte que sempre me leva às barcas primeiro do prazer, depois da culpa e, por último, da solidão. Escolhi, depois de tanto me afogar, me aquietar nas ondinhas da própria praia a furar a rebentação de outrem. Caldo pós caldo, me adaptei: virei sereia.