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Professorinha

11.05.2015 -


Larguei o cigarro. Agora ando de bike. Nunca mais cheirei. Desencanei desse lance de trair. Ah, amadureci, né. Ah, eu era um pivete. Lógico, eu fui um merda. Nem maconha eu fumo mais. Ó só, agora eu me exercito. Tenho tentado comer mais saudável. Menos carne, mais orgânicos. Não bebo mais. Desencanei de balada. Aprendi muito com você, Camila. Hoje sou um cara melhor - pra atual, pra uma próxima mina, porque todos vem a esse mundo pra evoluir, não?

Tenho tentado fazer as pazes com meu passado. Nos últimos meses, fui de encontro a namoricos que muito significaram na época, alguns caras voltaram até mim - numa hora, aparei arestas, noutra, recebi a ficha dum desses momentos divinos da vida em que você quase olha pro céu, pra cima, pra luz e mentalmente, diz "por que tanta demora? eu sempre soube!". 

Que experiência benigna essa, aliás. Eu, uma eterna me-ame-ou-me-odeie-tô-aqui-pra-mais-que-isso, agora aceito e fico feliz com o progresso que meus antigos amores desempenham. O sentimento é real. Tal qual a professorinha do prézinho acompanha, nostálgica e longínqua, o crescimento de quem já tanto apertou as bochechas e fez que colocasse casaco em tempo gelado.

Me arrependo de não ter convivido com seus pais. A gente devia ter ido naquele bar. Você podia ter dormido lá em casa mais vezes. Por que é que a gente não rolou? Tem que se cuidar aí em São Paulo, viu. Faz os caras usarem camisinha, Camila. Depois que meu pai se foi, aprendi a encarar os relacionamentos de outra forma.

A gente libera pra próxima série, passa a achar esquisita a fase cheia de metamorfoses até que, tão meninos, eles conseguem esboçar orgulho de quem são em papos despretensiosos - tarefa de casa das facinhas raciocinar "cumpri meu papel aí, mesmo que de coadjuvante". 

Mentirosa que não sou, digo: é claro, rolou a tal crise da professorinha. Poxa, mas será que as pessoas vão me usar sempre como folha de rascunho? Quando diabos deixarei eu de ser mero quadro negro, o mau tempo das notas baixas, a crise do jovem apaixonado? Me toquei: quando eu mesma passar a olhar com um viés mais desejável os rapazes de maturidade níveis e níveis acima. Depois de um portfólio de experiências, talvez seja o que eu precise.

É praticamente atestado de reprovação o feeling de escutar: eu, hoje, seria um namorado diferente. A gente teria dado certo se fosse agora. Uma pena, uma lástima, nota vermelha pra ingenuidade dos anos atrás. Na nossa bagunça de recreio teve desordem, advertência, expulsão; quem será louco de dizer que não houve também amor, porém? Certamente alguém que queira ficar sem companhia para os trabalhos em grupo. Eu deixo o balanço livre pra que outras, agora, façam boa brincadeira (e uso).

Esses dias eu consegui sentir algum carinho por você

11.03.2015 -

Cheguei em casa tarde da noite depois daquela terça-feira e desabei. Primeiro, como quem teve dia de cão e precisou domar trinta leões para colocar em ordem as redes sociais, as pendências de saúde, as finanças e seus números insuportáveis. Depois, ao tomar a dimensão daquela conversa pacífica, da boniteza das palavras trocadas, do quão maduros, crescidos e estranhos nos tornamos. Ainda assim: chorei; de alívio, de alegria, de inundar as memórias mundanas e banais que já representaram a circunferência da Terra e o sentindo de mundo por aqui.

Há muito não havia ódio, há tanto quis escrever qualquer banalidade, como: sonhei contigo, como anda tudo por aí? Avisa tua mãe que ando forte, independente, ainda mais destemida e, finalmente, com a vida debaixo do braço. Uma felicidade ao abrir as suas fotos e ver como você anda depois de alguns anos, ter o coração sob controle e sentir o sorriso esboçado, desses de quem pensa: fomos de uma alegria insuportável enquanto durou, ainda que tudo tenha terminado em sirenes de emergência, fim de festa e alguns barracos. Guardo você num espacinho singelo por aqui que fica perto da divisão das "primeiras vezes", na divisa dos sentimentos confusos - é especial.

Demorei, é verdade, pra que esse estado sublime de amor pelo passado fosse possível. Foi necessário atravessar primeiro a raiva, depois o nojo, então alguma pena e desprezo para, só então, ter coragem de reabrir a porta do quartinho dos fundos que abriga as lembranças legais do casal amigo que fomos sem algum pé atrás e qualquer desconfiança. Contudo, foi transformadora a experiência pacífica de travar uma conversa sem mágoas arrastadas ou dores que latejam. Foi, inclusive diria, mais que o fechamento de um ciclo: o ganho de um passe pra que se viaje em paz e visite locais sem medo do outro, de repente, aparecer.

Ambos temos esse problema em costurar passados e dar o ponto final, você sabe. Ainda no último minuto, perdedores da partida desastrosa em final de campeonato que foi a prorrogação do nosso relacionamento, havia todas aquelas promessas de futuro possível, reencontro alguns anos mais tarde, eterno primeiro amor - todas palavras impossíveis, eu hoje jamais voltaria a morar em Porto Alegre, você frequenta baladas que nunca satisfariam meu apreço musical.

Ainda assim, esses dias eu consegui sentir carinho por você; desses quase fraternais, que a gente olha pra linha do tempo real e fica feliz ao assistir duas crianças descobrirem a não-inocência dos amores que se partem. Essa ferida, até que suturamos bem, não é? A luz daquele cômodo cheio dos jovenzinhos idealistas que fomos ficou acesa, você já embarcou em outra e eu estou à caminho de, à quase mil quilômetros, ser feliz aqui também. Ainda bem.

[Ajuda, Camila!] Tenho um boy ótimo, mas penso no ex. E agora?

10.19.2015 -


"Camila,
Namorei 3 anos, e após traição dele, terminei. Logo depois saí com um cara, nos identificamos e estamos juntos desde então. Tem sido incrível o sexo, a energia sem fim, as viagens loucas juntos, o carinho, a família e as coisas que nunca fiz. Mas, ao mesmo tempo em que estou feliz, me sinto angustiada! 
Penso no ex direto, sinto falta dos momentos e utilidades. Ah, eu não me entendo! Não quero continuar assim, sabe?! O que eu faço? Continuo, volto pro rei dos babacas ou o jeito é ficar sozinha? 
Beijos,
M."


Puxa, guria. Que situação! Bem, sua questão parece simples, mas duvido que na prática seja. Vamos lá! 
Cara, eu acho que existe muito dentro de nós uma negação em ter sido traída e, justamente, por um boy que considerá vemos ideal. Dói, é foda e, mesmo passando por outros pintos, namoros, affairs e afins, a gente parece acabar voltando - ainda que em pensamento - para esses rapazes que nos magoaram. Eu também tenho essa tendência a não aceitar a infelicidade e as falhas todas, sejam minhas ou de outrem. Mas, miga: esse homem que tu namora agora parece ser legal. Não é? Se o sexo é ótimo, você construíram intimidade, existe carinho e respeito (importantíssimo), acredito que seja um pouco viagem da sua cabeça essa suposta falta que o rei dos babacas faz. Há inúmeras pesquisas aí que apontam que voltar a relacionamentos passados é um puta erro, nunca vale o cansaço todo. 
Meu conselho é: pense sempre pra frente. Deixe o ex-namorado idiota lá atrás - existem MUITOS caras no mundo loucos pra nos presentear com aprendizados, beijos ótimos, sexos nem tanto, lições. Se você fosse uma amigona próxima, eu diria para ou continuar com o cara legal (esses sim, estão em falta no mercado) ou, caso as visões do bofe ruim não parem e você não se sinta completamente feliz com o atual, acabe e fique um tempo sozinha. Sem contato nem com um, nem com outro. O seu coração dará uma resposta e tanto!
Um beijo e boa sorte, M.!

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Ei, quer eu responda a sua pergunta também? Mande-a para o meu e-mail, camilapaier@gmail.com ou por mensagem privada por aqui. Respondo uma por dia! Ah, e não esqueça: no máximo QUATRO LINHAS

Obrigada, desgraçado

6.30.2014 -


Faz tempos que não nos vemos. Há cerca de um ano você foge e deixa de ir a lugares e de existir online, penso eu que, em minha razão. Triste isso. Mas nada é mais absurdo que a sequência de barbáries que eu vi você cometer quando ainda sonhávamos em morar fora daqui e ter três filhos homens (plano esse todo, todinho seu, eu seria boa mãe e tinha quadril largo, bom pra procriar, como você dizia, né?). Eu estou bem, finalmente. A sensação de vitória chegou há uns meses, quando tive a oportunidade de chegar pertinho e dar o tão merecido soco na cara e recuei de longe, num estacionamento. Sorri: você foi a melhor pior merda que me aconteceu nessa vida.

Não fosse o tranco de ter que aguentar barraco em festa com uma das suas amantes - que me perseguiu algumas outras vezes, em alguns outros meses - e a sua mudança repentina de cara normal com bons gostos a rapaz bombado de ostentação das festas, seria muito mais difícil seguir em frente. Afinal, deixei contigo alguns dos rótulos como aquele em que manchou lençóis e outros de conhecer família. Eu sofri, sofri horrores com as suas declarações de amor pra um futuro de não se sabe quando, chorei umas cento e pouquinhas noites, todas inteiras, por não compreender quem era a criatura que ria comigo depois de comer cookies; um rapaz com possibilidade de psicopatia ou um ser fraco e cheio de defeitos inconfessáveis? Você nunca pediu desculpas e fui obrigada a enfrentar um leão por dia, uma nova descoberta de vestígios passados por semana, as duas idas e vindas confusas que na sua língua eram amor e na verdade não passavam de posse. Obrigada, de coração, por ter dado espaço e deixado que o lugar vagasse pra alguém melhor sentar.

Quando penso em tudo que tivemos, nas babaquices e canalhices, nos minutos bem fingidos e nas horas sempre bem gastas (na cama, óbvio), não sinto nem raiva, nem dor, talvez nojo, acho que pena. Eu rebobino a fita e quase jogo as mãos ao céu, mesmo na nossa despedida, tão fria e horrenda: você me obrigando a aceitar a nota de cinquenta reais pra ir embora e sumir e não estragar a sua festa. Eu chorando como quem perde um membro ou a vida, mas era só a falta de ar e o mundo tombando enquanto eu descobria que, sim, tem em você uma podridão que eu desconhecia, ouvir dizer que eu era a pessoa que tu mais ama, mas, que também mais odeia fez cair todas as fichas do milênio de uma vez só, no meu alvo, na minha cabeça já pesada de tanto lacrimejar e querer descer do táxi. Demorei, mas compreendi coisas que talvez a gente só aprenda quando um pesadelo desses vira passado: gracias, muchas gracias por ter me feito crescer como ninguém, numa velocidade surpreendente e cheia de raízes. O mundo me derrubaria, como praguejou a sua voz, tão ingênua e boa. Sacudi mas tô aqui, mais de pé que nunca antes.

Depois disso, entrei na academia. Adotei uma gata. Me resguardei até que as feridas sarassem e não vou falar em fênixes porque isso é o maior clichê da Terra, mas depois de ter me perdido tanto pelas curvas de um caminho que decididamente não era meu, consegui sinalizar uma rota onde eu digo quando se para, quando se vai em frente, onde se descansa. Não que uma vontade irracional de cuspir em cima de você não exista, claro. Ao vivo minha imprevisibilidade dobra de tamanho. Porém, existe uma gratidão profunda por ter me deixado em paz, por você ter deixado pra lá, por eu ter ficado aqui. Hoje, mais loira, mais magra, mais saudável, mais bem comida e em tratamento consigo visualizar, com felicidade, o quão dodói éramos os dois e corrosivos seríamos se juntos continuassemos. Você disse, até o final, que algo sério seria comigo e só. Eu descobri a sua garota e Hubble, eu até poderia dizer que ela é adorável, porém, depois de tanta manipulação e jogos mentais, só posso dizer que com as informações que chegaram até mim, ela é ideal. E eu aprendi que sexo é muito melhor quando não é tão rapidinho e é muito melhor cedo da manhã, aliás. 

Fica aqui, então, o meu agradecimento por ter sido tão traída e tola, tão enganada e maltratada, um tantão iludida e por fim, liberada da sua feitiçaria toda cheia de perfumes bons e palavras aparentemente únicas que todas escutávamos como eco, uma atrás da outra. Obrigada por me fazer sozinha no mundão pra que eu reconhecesse quem se pode chamar de amigo, thanks to all the constrangimentos você me poupa fugindo sempre, grata serei eternamente por ter logo aprendido sobre a podridão do mundo, eu hoje sobrevivo com os pés mais no chão e um ceticismo que ficaram de herança sua atrás da minha orelha. As minhas coisas, que nunca pude ter de volta e muito menos buscar, torço pra que tenham ido pra uma fogueira sem chance de vida por onde anda alguém tão oposta a mim, tão "sem nem metade do seu brilho, gata", como disse um dos seus amigos gays que encontrei numa balada umas semanas atrás.

Obrigada por ter me livrado de tanta submissão, dos jogos intermináveis no computador, das datas comemoradas nas coxas, dos sentimentos nunca expostos, da não misturança de família a que você era avesso, da sempre minha efusividade cheia de carinhos tortos e beijinhos inesperados tão mal aproveitados por alguém que faltou o pré-primário de como se recebe amor e doa decentemente também. Obrigada por me dizer que preciso de mais, por me mostrar que sou mais, por ter deixado a porta tão aberta que mesmo com os pés sujos quem entrou aqui dentro é realmente quem sabe não ser só visita; eu sou mais feliz hoje solteira que brincando de casinha e aturando cachorros, eu prefiro tomar drinks a cozinhar e até aprendi a flertar e usar minha inteligência pra algo mais que só escrever; alinhada com meu bumbum, te digo com alegria que fazemos hoje uma dupla imbatível. Obrigada por sair da minha frente e não ser nunca mais a única coisa importante desse mundo, obrigada por dar espaço para a minha família voltar a me divertir e minha felina a me aconchegar, grazie per permanecer longe, evitar fotos, não expor seu namoro e nem nunca me importunar. De coração, seu idiota.

P.s. - Escolhi não te chamar de filho da puta em respeito à senhora sua mãe, um poço de sensibilidade e educação que, mesmo vendo o caminhão de merdas que cê jogou em cima de mim, me deu apoio e sábias palavras seguir em frente, firme, forte e ainda mais bonita. A sua falta de caráter, com toda certeza, tem nada a ver com a doçura das mãos da sua fadinha. O Teddy finalmente morreu, hoje faz um mês.